Distúrbios de ansiedade se manifestam de várias maneiras diferentes – da TAG (Transtorno da Ansiedade Generalizada) ao TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), passando pela ansiedade social e desembocando em fobias ou culminando em quadros de pânico. Cada quadro é sustentado por vários mecanismos diferentes, como os esquemas de evitação e esquiva e os esquemas mais elaborados como o de privação de afeto ou o esquema do abandono. Inclui também dificuldades em lidar com problemas existenciais como o fato que tudo muda e de que as perdas são inevitáveis. Isso também é uma forma de ansiedade.

Por causa da natureza complexa da ansiedade, nós temos que abordá-la por uma série de ângulos diferentes e pensar em ferramentas para tentar lidar com ela. Como também sou temperamental e ansiosa e já tive a síndrome do pânico e fobia social, eu venho usando práticas de mindfulness por mais vários anos para trabalhar com minha própria ansiedade que aparece nos eventos do dia-a-dia e em tempos difíceis.

A ansiedade é algo extremamente difuso e difícil de lidar. Algumas estimativas colocam que pelo menos 30% da população estão sofrendo de um distúrbio de ansiedade nesse momento, número que acredito ter aumentado muito na pandemia do coronavírus.

Veja aqui mais sobre como um ansioso vive na pandemia: https://elsieherber.com.br/como-ansioso-vive-na-pandemia/

Como esse número chegou a esse ponto? É um aspecto cultural? É hereditário? Eu acho que não nos 2 casos.

Na verdade eu penso que é um acidente evolucionário. Um acidente evolucionário que tem a ver com mecanismos de sobrevivência que nos ajudam a prosperar e nos ajudam a perpetuar e passar nosso DNA para nossos descendentes, mas quando agregado tende a ser problemático. O que eu quero dizer com isso é: a ansiedade aciona um mecanismo de sobrevivência arcaico. Porque arcaico? Porque até os répteis têm! É o mecanismo de resposta da fuga e luta (fight or flight response).

Se estamos em uma situação que o perigo se aproxima, nosso batimento cardíaco aumenta e a respiração acelera, a temperatura corporal e a pressão sanguínea aumentam, nosso cérebro se auto regula e se prepara para responder e resolver esse perigo, esse risco. Todo nosso corpo se orquestra – desde a irrigação sanguínea até a diminuição do sistema imunológico – para ajudar o cérebro a tomar uma decisão: fugir do perigo ou lutar contra ele.

Milhares de outros pequenos detalhes se ajustam no corpo,  como nossos músculos na base dos nossos pelos se contraírem para ficarem de pé e nossas pupilas se dilatarem. Tudo isso para fazer parecermos grandes e ferozes!

 (Imagine quantos leões já não espantamos fazendo isso historicamente?!).

Todas essas mudanças fisiológicas do nosso sistema de fuga e luta foram desenvolvidos para nos ajudar em uma emergência e, de fato, são efetivos. Esse mecanismo provavelmente salvou inúmeros dos nossos ancestrais contra leões, tigres, cobras e outros perigos. 

Agora, se tivéssemos somente o sistema de fuga e luta talvez, não teríamos nos dado muito bem como mamíferos, porque imagine nossos ancestrais (macacos ou Australopithecus africanus) na savana africana 3 milhões de anos atrás vindo cara a cara com um leão.

Provavelmente não se sairiam muito bem. O leão é mais rápido do que somos, não conseguimos lutar com o leão apesar do acúmulo de adrenalina – nós estaríamos fritos. Batalha perdida e teríamos sido extintos.

Precisamos de outra estratégia. O outro mecanismo que nós humanos em particular desenvolvemos foi a capacidade de pensamento: a capacidade de lembrar experiências passadas, projetar no futuro e criar estratégias de como sobreviver.

É assim que eventualmente nós viemos a vencer os leões: desenvolvemos ferramentas de caça; desenvolvemos atividades em grupo, nos reuníamos em grupo para que cada um atacasse o leão de uma posição diferente ou conseguia evitar o território do leão…Ambos desses mecanismos – a fuga e luta e nossa capacidade de pensamento – funcionaram maravilhosamente juntos e nos permitiram sobreviver. 

Diante do perigo SEMPRE iremos calcular uma forma de fugir, lutar ou nos paralisarmos. Isso aciona um estado de agitação corporal ao qual damos o nome de MEDO. 

Diante do perigo, sentindo medo. SEMPRE IREMOS FUGIR. É UMA DEFESA NATURAL. UMA PROTEÇÃO.

O problema é que eles não fizeram uma boa função de atender uma coisa importante, sem a qual a percepção de perigo é enorme: a do pertencimento no grupo em que convivemos. 

Somos sociais. Vivemos em bando e para nos sentirmos pertencentes, amados e aceitos, esses mecanismos são ineficientes, insuficientes. O que acontece quando você coloca   dois humanos juntos? Podemos pensar sobre todo tipo de coisas que podem dar errado. 

“Nosso sistema de fuga e luta e nossa capacidade de pensar funcionam muito bem para nos permitir sobreviver, mas não funcionam muito bem para nos fazer sentirmos amados e socialmente aceitos”

Para isso desenvolvemos outro sistema altamente elaborado: o nosso sistema de afeto. Nós mamíferos – e principalmente os humanos com maior destaque –  somos alterados fisiologicamente quando estimulados pelo afeto. Nosso sistema sensorial todo que recebe a mensagem do afeto, do toque, do olhar, das palavras amorosas, da percepção de aceitação e acerto, libera serotonina e dopamina no nosso sistema e toda a orquestra corporal começa a tocar a favor do mesmo objetivo: eliminarmos o perigo. Só que ao invés de agitar o sistema nervoso, ele o acalma. 

A questão é que não sabemos usar esse sistema. Nem um pouco. É importante entender que os ansiosos estão usando um sistema arcaico –  que serve para lutar contra um leão – para eliminar o risco de serem rejeitados e para se sentirem amados. Basicamente é assim que a ansiedade disfuncional trabalha: usa um mecanismo arcaico para eliminar um perigo potencial subjetivo.

A boa notícia é que esse é possível aprender a usar o sistema afetivo para fazer o mesmo trabalho, porém a consequência disso não será o MEDO nem a fuga, mas o relaxamento e a capacidade de tolerar essas adversidades com resiliência, serenidade e aceitação. 

Isso é a maturidade emocional.

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